História

A HISTÓRIA DE CACHOEIRA DA PRATA

 

Em 1886, UMA VILA CHAMADA DE CACHOEIRA DE MACACOS, fundada juntamente através da Sociedade de Fiação e Tecidos Cachoeira de Macacos, indústria têxtil algodoeira instalada em Inhaúma, distrito de Sete Lagoas, a época considera região central de Minas Gerais, dá início a história da nossa cidade. 

Sediada ao lado do ribeirão Macacos, em terrenos de uma pequena propriedade que confrontava com a fazenda Riacho Fundo, o capital inicial da empresa era diminuto e somava 150 contos de réis, conseguidos a partir da venda de ações para moradores da região de Inhaúma.

A primeira diretoria eleita pelos acionistas foi formada por Jerônimo Francisco França e João da Mata Teixeira. Entre 1886 e 1887, através da venda de novas ações, o capital da empresa foi dobrado e, em julho de 1887, foi nomeado o primeiro gerente da companhia: Américo Teixeira Guimarães. Na transcrição feita por Eloy de Freitas da ata de fundação consta que assinaram ou foram representados por procuração, vinte e cinco sócios, entre eles duas mulheres e um padre.
No entanto, Flávio Nogueira, baseado em documentos pesquisados no arquivo da empresa, aponta que participaram de sua fundação 42 sócios, sendo que 28 deles, detentores de 78,12% das ações, tinham alguma relação de parentesco com o gerente Américo Teixeira. O principal investidor do empreendimento, João da Mata Teixeira, era seu próprio pai que, no início da década de 1890, possuía 20% das ações. 
Apesar de ser de uma família de fazendeiros da região, o enriquecimento de João da Mata não é atribuído por antigos moradores da localidade à sua ascendência familiar, mas ao seu segundo casamento, uma vez que ele teria utilizado as posses de sua segunda esposa para investir no comércio de gado e, a partir daí, acumulado riquezas que possibilitaram a ele ser o principal acionista da companhia. 

Apesar da grande contribuição financeira e de fazer parte da primeira diretoria da empresa, esse personagem, que iria ficar conhecido como Capitão João da Mata, ocupa um papel coadjuvante nas narrativas orais e escritas que reconstroem a fundação e a consolidação da vila fabril de Cachoeira de Macacos, pois o papel de personagem, central em praticamente todas as narrativas que contam a história local é exercido por seu filho, Américo Teixeira Guimarães, mais tarde Coronel Américo, sobre o qual dedicaremos todo o segundo capítulo dessa dissertação. No único livro publicado exclusivamente sobre a história de Cachoeira da Prata, Cachoeira de Macacos. 

O sonho de um pioneiro, o autor, Eloy de Freitas, deixa evidente a importância central que a figura de Américo Teixeira tem na idealização e na construção da fábrica em Cachoeira de Macacos. 



Cel Américo Teixeira Guimarães


                        A percepção da centralidade desse personagem é reforçada ainda por diversos outros documentos - escritos, orais ou iconográficos - que explicitam como a história local é reconstruída como uma manifestação de suas intenções individuais.

Cachoeira de Macacos - O sonho de um pioneiro, expressa bem a percepção da importância central de Américo Teixeira Guimarães para a história local.

                       Na realidade, mais do que se projetar como o principal personagem da história de Cachoeira de Macacos, Américo Teixeira, ao desempenhar o cargo de gerente da companhia entre 1887 e 1913, se tornou o representante maior de uma tradição de gestão da fábrica e da sua vila operária. Nessa tradição, o “gerente” é reconhecido como o “mandatário geral” da localidade, responsável por questões administrativas, técnicas, trabalhistas, assim como pela infra-estrutura de serviços, seleção de operários, solução de desavenças pessoais, entre outros elementos do cotidiano da vila fabril.

Uma das primeiras responsabilidades que coube ao gerente Américo Teixeira foi coordenar a construção da infra-estrutura da vila fabril e acompanhar o processo de importação de todo o maquinário necessário para o funcionamento da fábrica. 

Através da iniciativa do próprio Américo Teixeira, que, adquirindo “dicionários português/inglês e escrevendo para a Inglaterra, expondo suas pretensões e consultando sobre as possibilidades de comprar as máquinas necessárias ao início de uma fábrica de tecidos”, o agente inglês Robert L. Kerr foi contatado como o representante dos fabricantes ingleses de teares no Brasil, sendo, por intermédio dele, adquirido todo o maquinário. 

Um documento secundário aponta que, ao longo desse processo, um técnico inglês foi contratado para fazer a montagem do maquinário e que, por desavenças pessoais com Américo Teixeira, não chegou a terminar os serviços para o qual foi trazido até Cachoeira de Macacos. 


Acionistas da Fábrica de Tecidos


            Não podemos afirmar que esse documento expressa o que realmente aconteceu naquele momento, no entanto é possível dizer que desde o início da construção da fábrica havia a idéia de que todos os trabalhadores envolvidos na produção fabril fossem “nacionais”, como explicitado em carta enviada pelos diretores da Companhia ao governador de Minas Gerais em agosto de 1887. Em 1888, o empreendimento, já em funcionamento, possuía em torno de 100 teares com capacidade de produção de 1.200.000 metros.
Foto mostra início da construção da represa


Represa construída para levar água até a fábrica de tecidos
                

                        Inicialmente, a força motriz utilizada para a movimentação das máquinas era adquirida a partir do desnível de um canal que levava água de uma barragem feita com sacos de areia no ribeirão Macacos até a fábrica. 

A maior parte do algodão utilizado como matéria-prima desde a fundação da fábrica era adquirida na própria região central de Minas, sendo que alguns dos próprios acionistas eram fazendeiros que se tornaram fornecedores de algodão para fábrica. A venda de tecidos, assim como a compra do algodão, era feita, através de tropeiros e carroceiros, que atendiam o mercado interno. 

A inexistência de estradas de rodagem e pontes sobre os cursos de água da região era um dos principais empecilhos para a ampliação da produção e da venda dos tecidos, sobretudo nos períodos de chuva. A estrada de rodagem que ligava Cachoeira de Macacos à sede urbana municipal de Sete Lagoas foi construída por volta de 1905 e, ainda assim, o trajeto de ida e volta durava em torno de três dias, o que significa dizer que o isolamento da vila fabril era uma realidade que comprometia tanto a produção da fábrica como o cotidiano da população.

Um exemplo bastante elucidativo dessa dinâmica refere-se ao funcionamento do armazém mantido pela companhia para servir aos operários nas primeiras décadas do século XX. 


A vila Cachoeira de Macacos

Conhecido como “Armazém do seu Chico Moreira”, que era um dos acionistas que havia arrendado os direitos de sua utilização, neste comércio a companhia mantinha uma caderneta para que os operários pudessem anotar as suas compras e pagálas no dia 10 do mês seguinte. Segundo Eloy de Freitas, que foi contador da fábrica durante muitos anos, “esse sistema facilitava para que a companhia ficasse ciente do movimento geral de cada família e, assim, pudesse prever como seriam as vendas e as compras dos operários, adequando-as aos próprios resultados da empresa.

Em outras palavras, a empresa tinha conhecimento tanto do volume geral de dinheiro que iria circular em determinada época, como da disponibilidade financeira de cada família. Dessa forma, poderia controlar as vendas de mantimentos aos operários de forma a minimizar os seus déficits em tempos de crise e aumentar os lucros em tempos de bons rendimentos.


Esta foto mostra como era a Vila em 1910


Um relato, que descreve como era o funcionamento do comércio de mantimentos na vila, foi feito por um antigo morador da cidade. Ele fala que não vivenciou essa realidade, mas tomou conhecimento dela através de histórias contadas por seus tios, o que significa dizer que o caso por ele relatado refere-se mais a uma “memória indireta” e à constituição de um imaginário que representa os “tempos antigos” da vida na localidade.

José Teixeira de Paula, o Tí Zé da Ariranha (na foto) que nasceu em 1922 e foi funcionário da fábrica de tecidos por 26 anos. Segundo ele, os negociantes, se você tivesse devendo, eles é que marcavam o tanto que você ia comprar. Às vezes você queria comprar os trem de comer, que dava para o mês inteiro, né? Aí não, eles falava assim: “Você vai levar só essa quantidade aqui.” Quando chegava no fim do mês aqueles trem acabavam e o nego ficava doido. 

O aglomerado da Vila Cachoeira de Macacos, na primeira década do século XX, possuía em torno de 600 pessoas, dos quais 224 eram operários da companhia. O regime de funcionamento da vila fabril de Cachoeira de Macacos era o toque de recolher, que soava todas as noites, às nove horas, quando o “rondeiro” começava a circular pela localidade para vigiar se havia pessoas fora de suas casas.

Antigamente, deu nove horas da noite, tinha que está dentro de casa. Se alguém estava andando até dez horas da noite, o rondeiro queria saber o que houve. O que aconteceu em casa. Por que estava andando àquela hora na rua? Era muito complicado e a vida de cada um era bastante monitorada, todos tinham que obedecer pois as casas eram todas da fábrica.

Aqui era um regime, um trem doido. Chegavam nove horas, batia o sino, todo mundo tinha que ir embora; se não fosse embora, ia preso. A fábrica começava a trabalhar às seis horas, aí o “rondante” entregava a função dele e ia embora pra casa dormir. Aí já era dia, tudo bem. A fábrica impôs um regime para evitar a malandragem, exatamente pra evitar esses forasteiros de fora, balbúrdia, essa coisa toda aqui. 


Antiga Rua Velha, hoje Av. Capitão João da Mata


Ainda não foi possível apurar a data exata em que foi instituído o toque de recolher em Cachoeira de Macacos. Sabe-se, contudo, que no início do século XX, essa se tornou uma prática dos dirigentes da companhia, que iria se estender até a década de 1950, poucos anos depois do processo de modernização pelo qual a fábrica começou a funcionar em turnos noturnos.

Na década de 1910, um terceiro passo foi dado para minimizar o problema do isolamento físico da fábrica: a importação de um veículo produzido, provavelmente na Alemanha, com o nome de locomóvel. Sabemos que em diversas regiões do Brasil, no início do século XX, o locomóvel foi utilizado para geração de energia e beneficiamento de produtos agrícolas. A diferença da máquina trazida para Cachoeira de Macacos é que suas rodas eram motrizes e adaptadas para estradas de rodagem, o que a transformava em um meio de transporte adequado para a realidade local.


Na foto o Armazém do Sr Chico Moreira


O locomóvel foi recebido com grande ansiedade em Cachoeira de Macacos, pois prometia oferecer uma solução definitiva para o encurtamento das distâncias que separavam a fábrica de outros pontos importantes, especialmente da ferrovia, que agora poderia ser alcançada em menos de seis horas.

A importação desse veículo movido a vapor deve-se, em grande parte, à influência de um alemão chamado Kouvarik que seria bastante próximo de Américo Teixeira e, nas primeiras décadas do século XX, teria por hábito passar suas férias em Cachoeira de Macacos. Com o locomóvel importado da Alemanha veio também à primeira máquina de projeção de cinema, na década de 1900.

Uma série de “trapalhadas” que ocupam um lugar de destaque na memória da população mais antiga da cidade, com a vida do locomóvel. A primeira delas ocorreu logo na saída de Sete Lagoas, quando o locomóvel, ao passar sobre uma ponte, que não tinha sido construída para veículos desse porte, teria desabado dentro do rio, matando seu chofer. A segunda é que rapidamente se descobriu que sua carroceria era muito pequena e, como teria que ir sempre cheia de lenha, não haveria espaço para o transporte de tecidos, principal motivo pelo qual foi adquirido.


Um dos primeiros automóveis de Minas Gerais. Na época importado pelo Cel. Américo Teixeira


Finalmente, percebeu-se, a partir de exemplos concretos, que as fagulhas de seu motor eram perigosas nos tempos de seca, pois queimavam pastagens e casas que estivessem nas margens da estrada. Todos esses desastres e decepções poderiam ser previstos se o “progresso tecnológico” esperado do locomóvel fosse planejado a partir da realidade local. Porém, essas dificuldades acabaram sendo contornadas, e o veículo foi utilizado pela fábrica por aproximadamente vinte anos. Ainda assim, a forma como ele foi introduzido expressa bem como a ideia de progresso tecnológico chegava ao Brasil, através da propaganda de invenções e experiências ocorridas no estrangeiro e nem sempre adequadas à nossa realidade.

Além da estrada de rodagem e do locomóvel a localidade em 1911, contava também com uma agência de correio, uma linha telefônica que a conectava aos povoados de Fortuna, Inhaúma e a cidade de Sete Lagoas. Em Cachoeira de Macacos, essa estratégia passou por diversos aspectos da vida cotidiana. A montagem de um cenário urbano para a vila foi, sem dúvida, um dos mais importantes, e nele incluímos tanto a transformação da paisagem arquitetônica, como questões relacionadas ao abastecimento de água, iluminação elétrica, espaços de lazer e oferta de educação primária para as crianças.


Antiga residência do Cel. Américo


Em relação à paisagem urbana, a integração física entre a área de produção da fábrica e o resto da vila era um elemento marcante de Cachoeira de Macacos. Na margem direita do ribeirão Macacos, entre a represa e a fábrica, formou-se o primeiro aglomerado urbano ou a “rua Velha”, como ficou conhecido esse núcleo na segunda metade do século XX. Até a década de 1900, as edificações que formavam a “rua Velha” seguiam um padrão arquitetônico, que era, no final do século XIX, predominante nas áreas rurais centro-mineiras e que pode ser denominado como estilo neocolonial. Essas edificações tinham, de modo geral, a estrutura de madeira, paredes de adobe ou enchimento, janelas, e portas de madeira, piso de assoalho ou chão batido e cobertura de telhas canal feitas artesanalmente.

O estilo arquitetônico que poderia ser considerado predominante nas construções feitas pela fábrica nas primeiras três décadas do século XX é o eclético. A terceira foto mostra a casa na Vila de Cachoeira de Macacos da família do Cel. Américo Teixeira, que, até a década de 1900, ficavam permanentemente na sede da fazenda Salvador, distante aproximadamente três quilômetros da vila fabril. Nesta edificação, vemos um dos primeiros exemplares onde a inscrição CCM (Companhia Cachoeira de Macacos) aparece na fachada frontal da segunda casa da foto acima que é composta por formas geométricas, motivos decorativos florais e uma platibanda que oferece à residência uma feição similar às edificações construídas em diversos centros urbanos do Brasil, no início do século XX.

A utilização de cimento e tijolo maciço na técnica construtiva é uma inovação que a edificação traz para a vila, e a presença de pinturas internas em alguns cômodos demonstra uma tendência que foi, posteriormente, seguida em diversas edificações da localidade.

No início da década de 1910, uma escola foi instalada pela fábrica na vila. Contando com quatro turmas, essa instituição atendia desde os filhos dos dirigentes e operários até os filhos de pessoas que moravam nas redondezas e não tinham vínculo algum com a fábrica. Através dos arquivos da Escola Municipal Cel. Américo Teixeira, podemos perceber que essa iniciativa educativa estava entre aquelas pelas quais os dirigentes da companhia tinham maior apreço, sendo que as crianças que trabalhavam na fábrica ganhavam seu ponto de serviço, somente, se fosse também à escola.

Por tudo isso, Cachoeira de Macacos cumpria os requisitos necessários para se consolidar como um lugar de progresso no início do século XX e se transformar em uma das localidades que mais contribuiu para o desenvolvimento econômico de sua região.


A igreja Matriz sagrado Coração de Jesus


A Igreja Sagrado Coração de Jesus, foi construída em 1933 e possui elementos do ecletismo e do neogótico, acompanhando traços que estavam em voga na arquitetura de centros urbanos mineiros na primeira metade do século XX. Composto por uma fachada simétrica e uma grande torre central, esse templo possui como um dos elementos de maior destaque a pintura interna feita pelos irmãos Gorretti, dois italianos que também pintaram os escritórios da fábrica e outros templos em cidades mineiras na década de 1930.

A partir dessas evidências, podemos dizer que um aspecto paisagístico moderno foi tomando a vila fabril que contava com aproximadamente 110 residências no final da década de 1930. Entre todas elas, somente em quatro havia água encanada: três eram casas de dirigentes da fábrica e uma era a residência do principal comerciante da localidade. Algumas outras casas da vila possuíam cisterna própria, mas a grande maioria dos moradores buscava água em uma bica instalada pela fábrica próxima ao “bicame”.

Este era um equipamento de metal que substituiu o rego que conduzia a água do ribeirão Macacos para uma usina hidrelétrica instalada dentro da fábrica. Essa usina foi inaugurada em 1906 e está entre as primeiras usinas a entrar em funcionamento no estado de Minas Gerais. Sua inauguração foi feita com grande festa e, a partir dela, a localidade ganhou uma de suas principais referências paisagísticas: o cruzeiro iluminado instalado no topo do morro do Cruzeiro.

Além dos adventos da água encanada e da luz, a vila contaria também com um cinema, que chegou no início do século XX e é considerado uma das principais diversões dos moradores até a década de 1980. Outros lazeres bastante típicos de centros urbanos, como as bandas de música, os times de futebol e o“fazer avenida”, como eram chamadas as caminhadas feitas na principal rua da vila, já estavam bem consolidados no cotidiano de vida da população em meados do século XX.

Alguns depoimentos apontam que as crianças entravam para a companhia com a idade de aproximadamente 10 anos, geralmente filhos ou familiares de outros operários já empregados.


Nesta foto, os operários da fabrica de tecidos


Enfim, a vila fabril de Cachoeira de Macacos poderia ser considerada um símbolo de progresso em Minas Gerais, porque foi capaz de reproduzir em uma área rural uma infra-estrutura e hábitos culturais que somente poderiam ser alcançados em alguns centros urbanos da época. Os principais fatores para que essa realidade fosse possível foi: a implantação da indústria têxtil.

A história de vida de Ana Costa, uma das pessoas mais queridas e famosas da cidade nos parece um exemplo significativo dessa realidade. Nascida no povoado de Urucúia, atual município vizinho de Esmeraldas, seu pai era carpinteiro e veio para a vila com toda a família em 1922. Em menos de dez anos, três de suas filhas já estavam trabalhando na fábrica.

A última delas foi Ana Costa ou Tia Nica, como é conhecida carinhosamente por todos da cidade. Tia Nica ingressou na empresa aos onze anos de idade e, inicialmente, trabalhou no que ela chamava de “serviço do dia”, o que incluía diversas atividades da área de fiação. Ao reconstituir seu ingresso na companhia, Tia Nica nos diz que foi trabalhar “para ajudar em casa. Já tinha duas irmãs que trabalhavam, e aquele que tomava conta (da fábrica), falou com papai que mandasse a outra também.” Esse relato possibilita a constatação de uma prática sistemática de recrutamento de crianças entre as famílias de operários já empregados na fábrica.

Segundo contam, o Cel Américo não aceitava ninguém ficar a toa na vila, seja, quando uma criança completava certa idade, era obrigada a trabalhar se assim fosse a vontade do coronel. O Cel Américo Teixeira foi, desde 1886, gerente da fábrica têxtil, passando a atuar como superintendente em 1913 e como diretor em 1916. Sempre a última palavra na vila era a sua, até nas questões familiares. Ao longo de aproximadamente cinco décadas, foi o principal responsável pela criação e consolidação de um regime de funcionamento da fábrica e de toda a vila que a circundava. Ali, a sua vontade tornou-se a principal “lei”. 

Na realidade, essa imagem de “coronel mandão”, é outra representação bastante recorrente nas fontes consultadas e que, de certa forma, se coloca de maneira antagônica à representação de seu elevado. “espírito de entendimento”. Certamente, ambas integram o tipo de líder que era o Coronel Américo: autoritário e compreensivo, muito inteligente, lia muito principalmente o dicionário inglês para manter contato com outros países na negociação de máquinas para a sua empresa jáue no Brasil estas máquinas ainda estavam em processo lento de fabricação. Com essas características, pensamos que as estratégias utilizadas por ele para manter sua autoridade eram múltiplas, dependendo do momento e do interlocutor de cada situação, como os casos relatados acima deixam claro.

O Cel Américo Teixeira Gimarães era um homem que gostava de política, chegou a ser eleito vereador em Sete Lagoas.  Era um chefe, com a política estadual e nacional através do apoio a “Melo Viana, Alfredo Sá e Daniel de Carvalho”, candidatos a cargos legislativos e executivos de maior abrangência. Naquela época o governador do estado Melo Viana, que veio aqui muitas vezes, só ficava na casa do Cel, eram amigos pessoais, ficava lá 3 o 4 dias para caçar.

O presidente da câmara, Cel. Altino França, era um dos chefes políticos de Inhaúma e sócio de Américo em diversas empresas; e o vice-presidente, Bernardino Vaz de Melo, era seu genro, e dirigente da fábrica de Cachoeira de Macacos, sendo reconhecido como o “braço direito” do Coronel na política. O Cel Américo faleceu em 1947, sendo sepultado em Cachoeira de Macacos, (hoje Cachoeira da Prata).


Túmulo onde está sepultado o Cel Américo Teixeira em Cachoeira da Prata


Nicolau Teixeira nasceu no ano de 1863 e faleceu no dia 20 de agosto de 1951, com 88 anos. Através de seu registro de óbito, identificamos que era proveniente da região de Fortuna de Minas, atual município limítrofe de Cachoeira da Prata. Seus pais, Benedito e Carolina Teixeira, foram, provavelmente, escravos de Antônio Teixeira Guimarães, avô do cel. Américo.

Nicolau teria sido criado desde pequeno na fazenda do pai de Américo, mas pertencia ao próprio Américo, tendo saído para ele em um inventário. Acreditamos que, no início da década de 1880, após se casar com Laurinda França, Américo se mudou para a Fazenda do Salvador, distante, aproximadamente, quatro quilômetros do local onde foi, posteriormente, implantada a fábrica de tecidos. O escravo Nicolau teria se mudado junto com Américo para essa fazenda e, mesmo com o fim da escravidão, ali teria permanecido até receber de seu ex-senhor uma pequena gleba de terra, onde se estabeleceu com sua família. 

O terreno doado a Nicolau, que pertenceria à companhia têxtil fundada por Américo, estava a seiscentos metros das instalações da fábrica, na margem esquerda do ribeirão Macacos, onde não havia construção alguma da empresa. Não sabemos a data e a área exata das terras doadas, pois, ao que tudo indica a doação não foi registrada oficialmente. No entanto, através do cruzamento de diferentes fontes, concluímos que o terreno teria pouco mais de dois hectares de área e que sua doação foi feita na década de 1900.

Os significados dessa doação são muitos, especialmente para os descendentes de Nicolau que vivem nessas terras até a atualidade. Talvez, o mais importante seja a ascensão social de Nicolau, que deixou de ser agregado de fazenda para se tornar um lavrador pobre, mas “proprietário” de um pequeno terreno, localizado nas imediações da vila de Cachoeira de Macacos. Sobre Nicolau, encontramos alguns versos em um poema sem data, escrito por um autor desconhecido. Posterior ao ano de 1975, quando a cidade mudou de nome para Cachoeira da Prata.

 

“Vou contar para vocês

parte da história de Cachoeira

foi fundada em 1886

pelo Cel. Américo Teixeira

O Cel. Américo

era moço destemido

sem nada para fazer

montou logo a fábrica de tecido.

O Coronel era gente boa.

nunca foi homem mau.

Não deixava de ter segurança

um deles era o preto Nicolau.

Nicolau era um preto

velho cheio de artimanha.

Fez logo sua casa lugar chamado Ariranha


O Cachoeirense Futebol Clube na década de 80
De pé: Pidão, Mardem, Adinho, Mário, Dalminho, João de Donor e Bené da Ariranha
Agachados: Welington, Alexandre Macaco, Iúda, Beto de Ném e Cesar de Amadeu


Fundado em 1919, o Cachoeirense Futebol Clube já deu muitas alegrias ao nosso município.

Muitos foram os nomes que já desfilaram nos gramados do estádio Dr Geraldo Pereira da Rocha como: Burú, Bené da Ariranha, Môte, Dilsinho, Fuzil, Alírio, Gato, Marcelão, Zé Alberto, Iuda, Preto Febem, Cesar de Amadeu, João Miranda, Tino, Bineta e muitos outros que merecem ser lembrados.


O título mais comemorado foi o Campeonato Amador de 1987 pela liga de futebol setelagoana, onde disputaram naquela época times como o Bela Vista e o Ideal de Sete Lagoas, o Cristalino e o Cap de Pompéu, o Inhaumense, entre outros.

Assistir o time entrar em campo era a maior alegria das tardes de domingo em Cachoeira.

Em 30 de dezembro de 1962, a Vila Cachoeira do Macacos, torna-se mais um dos municípios de Minas Gerais, sendo que no dia 01 de março de 1963, o município teve a sua instalação conforme a Ata em anexo:


Cópia da Ata de Instalação do Município de Cachoeira do Macacos


Waldir Ferreira França é eleito o primeiro prefeito do município governando por dois mandatos seguidos até 1970.  Em 1971 toma posse Antônio Alves Costa Filho governando até 1974. Em 1975 a cidade elege João da Mata Pires, sendo que no mesmo ano mais precisamente no dia 17 de dezembro o nome da cidade mudado, passando de Cachoeira do Macacos, para Cachoeira da Prata.

Segundo contam na cidade pelos mais antigos a mudança do nome se deu por causa de brincadeiras de mau gosto que eram feitas com moradores por pessoas de fora, chamando-os de macacos.

João da Mata administra a cidade até 1979, quando um ajudante de farmácia do saudoso João de Abreu, o Rafael Ernando Corrêa sagra-se como o novo prefeito e seu mandato vai até 1982. Em 1982, quem é eleito para prefeito é o recém-chegado dentista na cidade, Wilson Marega Craide que governa o município, onde em maio de 1987 ele se afasta para candidatar na cidade de Piumhi, centro oeste mineiro. Em seu lugar entra o vice José Eustáquio Ribeiro Pinto (o Zé Branco).

Já no ano de 1988, o operário da fábrica de tecidos, Murcio José Silva é eleito prefeito de Cachoeira, governando até 1992. Novamente em 1992, Rafael Ernando Correa é eleito para mais um mandato, que vai até 1996. Em 1996 numa eleição bastante disputada entre 3 candidatos, entre eles uma mulher (a Selma Pimenta), Domício de Campos Maciel elege-se prefeito.
Mais tarde no ano de 2000, com o processo de aprovação da reeleição no País, novamente o prefeito é Domício Maciel. Em 2004, o novo prefeito eleito é o Zé Branco, o mesmo que foi vice do ex-prefeito Wilson Craide na época de 1982.



Em 2008, talvez a mais disputada de todos os tempos em Cachoeira por 3 candidatos, mais uma vez aparece o nome de uma mulher na disputa, (a Sandra Tavares) que perde a eleição por uma diferença mínima de 21 votos e Domício Maciel sagra-se novamente prefeito de Cachoeira da Prata. Na última eleição reaparece o candidato Murcio José Silva, que em 07 de outubro de 2012, é eleito com a maior votação que um prefeito já obteve no município sendo 1665 votos computados, mandato (2013/2016).

Com a criação da Vila pela fábrica de tecidos, famílias foram chegando com a promessa de trabalhar na empresa, já que emprego naquela época era muito difícil a não ser na roça.


Costumes e modas também foram implantados, também podemos destacar algumas das famílias que passaram e deixaram nomes em suas gerações que hoje compõe a cidade como: os Melos, os França, os Barbosa, Fernandes, os Vaz, os Rocha, Cota, Padrão, Moreira, Teixeira, os Viana, Ferreira, Pereira, Guimarães, Pires, os Vieira, Gonçalves, Tavares, Abreu, Freitas, os Santos, Costa etc.

 

LIMITES DO MUNICÍPIO DE CACHOEIRA DA PRATA

 

a) Limites Municipais:

1 - Com o Município de Fortuna de Minas: Começa no Ribeirão dos Macacos, defrontando a Serra da Vargem, da Tapera e na foz da grota de João Araújo; daí, em rumo do boeiro na mesma grota, sobe pela grota de João Araújo até sua mais alta cabeceira, na divisa de águas do córrego da Fortuna; segue por este divisor, e, depois pelo divisor de águas entre o ribeirão dos Macacos e rio Paraopeba, passando pela serra do Capão Queimado ou Juca Matias até defrontar a cabeceira do córrego do Sobradinho; desce por este córrego até sua foz no ribeirão dos Macacos, ponto fronteiro à Serra do Buracão.

2 - Com o Município de Inhaúma: Começa no ribeirão dos Macacos na foz do córrego do Sobradinho defrontando a serra do Buracão; por espigão alcança esta serra, segue por ela, no divisor de águas entre o ribeirão dos Macacos e córrego do Pacu até o ponto fronteiro a foz de uma pequena grota no Riacho Fundo, entre as sedes das fazendas Riacho Fundo e Sílvio França, desce a encosta e atinge a dita foz; segue pela grota, também chamada grota da Ponte Quebrada, até sua cabeceira, transpõe o divisor e por espigão alcança a cabeceira da grota do Frio; desce por esta grota até sua foz no córrego do Chico Ourives, sobe por este córrego até sua cabeceira na serra do Pacuzinho e por espigão alcança a cabeceira da grota da Limeira; desce por esta grota até sua foz no córrego do Pacuzinho; por este córrego, até o começo do açude do Salvador; por espigão alcança a serra da Vargem da Tapera, segue por esta serra até defrontar a foz da grota de João Araújo no Ribeirão dos macacos, desce a encosta e atinge o ribeirão dos macacos nesta foz.